Giuseppe Martinelli, um empresário ítalo-brasileiro bem-sucedido chegou ao Brasil em 1893. Seu grande sonho era construir o prédio mais alto da América do Sul e de fato conseguiu. A construção foi inicialmente projetada para ter 12 andares, mas o projeto foi expandido. A obra enfrentou desconfiança e até denúncias de risco de desabamento, mas Martinelli persistiu. Para provar a segurança da estrutura, ele e sua família se mudaram para um palacete construído no topo do prédio. Engenharia por trás dos novos maiores arranha-céus no Brasil
Inaugurado em 1929, o Edifício Martinelli se tornou o primeiro arranha-céu de São Paulo e, por muitos anos, o mais alto da América Latina, com seus aproximados 105 m e 30 andares, um símbolo de progresso e modernidade para a época.
O edifício Altino Arantes, concluído em 1947, hoje conhecido como Farol Santander, superou o Martinelli em altura. Tivemos também o icônico prédio corporativo Edifício Itália. Inaugurado em 1965, com 45 andares e 165 m, ainda é um dos mais altos da cidade.
O edifício Mirante do Vale (ou Palácio W. Zarzur), concluído em 1960, com 51 andares e 170 m, foi recordista por 55 anos. Foi destituído em 2022 pelo Platina 220 com 172 m, no tradicional bairro do Tatuapé. Porém, já superado por outra obra de arte da engenharia contemporânea.
Corporativo mais alto é de sampa
O edifício mais alto da cidade (em obras) hoje é o corporativo Alto das Nações. O novo recordista é construído em grande complexo imobiliário da zona sul da cidade e quando estiver pronto terá imponentes 219 m de altura e será o maior edifício de escritórios do País.
Um dos diferenciais da obra é o pé-direito duplo. Serão 4,7 m de altura, algo incomum nos prédios brasileiros e que impôs desafios operacionais à construtora. O prédio também terá um mirante com vista 360º aberto à visitação e uma “caixa de vidro suspensa”, que se projetará para fora, a exemplo do também paulistano Sampa Sky.
A obra ocorre 24 h, com diversas frentes simultâneas. O transporte dos painéis de alumínio e vidro da fachada (de 4,6 x 1,25 m e 130 kg) ocorre, especialmente à noite e de madrugada. Para realizar o transporte de trabalhadores e materiais até os pavimentos mais altos há quatro elevadores cremalheiras e três gruas, que suportam até cinco toneladas.
O vento exige que o prédio seja imperceptivelmente “flexível”, sendo avaliado o impacto direto sobre a pele de vidro e, consequentemente, a estrutura.
No desenho, optou-se por linhas retas, que formam ângulos com formatos “tridimensionais”. Além disso, estão sendo instaladas duas jardineiras na parte externa (com plantas de raízes resistentes ao vento). Essa vegetação trará duas “linhas verdes” à fachada.
A torre terá subsolo, quatro “sobressolos” de garagem, térreo (com pé direito de 8,5 m), 39 andares de lajes corporativas, mirante e heliponto. Quando pronto, terá mais de 30 elevadores para dar vazão ao fluxo de frequentadores e trabalhadores.
Capital brasileira dos arranha-céus
Uma revolução silenciosa está acontecendo em Balneário Camboriú (SC), e só é possível graças a engenharia invisível que acontece com as fundações profundas. O objetivo é transferir o peso monumental da estrutura pelo atrito lateral com o solo e a resistência de ponta, apoiada diretamente na rocha.
Os empreendimentos residenciais mais altos no Brasil hoje estão em ‘BC’. São as torres 1 e 2 do Yachthouse, com 294 m e 294,1 m, respetivamente. Porém, o recorde de altura está para ser alcançado por um outro colosso da engenharia brasileira.
O Senna Tower terá fascinantes 544 m e por pouco não leva o título de maior residencial do mundo. Perdendo apenas para os 595 m do luxuoso Burj Binghatti Jacob & Co. Residences, em Dubai, no Emirados Árabes Unidos, já em obras com previsão de entrega em 2027.
O projeto contempla apartamentos descritos como “mansões suspensas” e, também, coberturas duplex e triplex. Há a previsão de um observatório (mirante) e andares panorâmicos de lazer.
O edifício contará com oito elevadores de alta performance, que prometem ser os mais rápidos do Brasil, capazes de percorrer do térreo ao último andar em menos de um minuto.
Um destaque é a tecnologia que permite a torre ficar de pé mesmo se for atingida por tufões. A tecnologia chama-se Tuned Mass Damper (TMD), “amortecedor de massa sintonizado”, em tradução livre, e evita que uma estrutura balance muito devido a vibrações, funcionando como uma espécie de grande amortecedor e contrapeso, que oscila em oposição à frequência natural da estrutura, absorvendo e dissipando a energia que causaria oscilações prejudiciais. A tecnologia consiste em dois conjuntos de mil toneladas cada um, que ficarão conectados ao prédio por meio de grandes molas e amortecedores.
Um oceano azul
O Brasil ainda figura com poucos arranha-céus em relação as principais cidades do mundo. O CTBUH (Conselho sobre Edifícios Altos e Habitat Urbano) contabiliza São Paulo, por exemplo, a 76ª cidade mais vertical do mundo. Segundo a organização, 210 cidades em 41 países têm prédios com ao menos 200 m.
Todos os projetos oficialmente anunciados até o momento para São Paulo não se aproximam, ainda, da altura dos gigantes mundiais. Segundo o CTBUH, prédios considerados “super-altos” precisam ter ao menos 300 m, enquanto os “mega-altos” têm 600 m ou mais. O atual recordista mundial é o Burj Khalifa, em Dubai, com 828 m, mas há projetos no Kuwait e na Arábia Saudita que buscam ultrapassá-lo.
Em suma, a engenharia brasileira não fica devendo nada em relação ao restante do mundo, estamos paulatinamente avançando e erguendo estruturas complexas, destacando nossa capacidade técnica e envergadura intelectual para competir com os principais players do mundo globalizado. Engenharia por trás dos novos maiores arranha-céus no Brasil