A transição energética estará entre as principais pautas discutidas na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que será sediada no Brasil em novembro deste ano. A expectativa de especialistas é que haja debates sobre a aceleração dos investimentos em tecnologias limpas e renováveis. Entenda qual foi a a transformação da matriz energética brasileira na última década
O Brasil tem se consolidado como um protagonista global na transição energética, impulsionado por uma década de investimentos estratégicos e políticas inovadoras. Entre 2014 e 2024, o país passou por uma notável diversificação de suas matrizes energética e elétrica, com um crescimento exponencial das fontes renováveis. Essa jornada não apenas fortalece a segurança energética nacional, mas também posiciona o Brasil na vanguarda da economia de baixo carbono.
Mas afinal, qual a diferença entre matriz elétrica e matriz energética?
Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a matriz energética é um conjunto de fontes disponíveis em um país ou estado para suprir toda a demanda de energia, e no caso da matriz elétrica, é o conjunto de fontes disponíveis para geração de energia elétrica em um país ou estado.
Um Líder Global em Energia Limpa
Historicamente, a matriz energética brasileira se destaca pela alta participação de fontes renováveis, principalmente a hidrelétrica. Essa base sólida permitiu ao Brasil acelerar sua transição. A Transformação da matriz energética brasileira na última década
A matriz elétrica, responsável pela geração de eletricidade, alcançou em 2024, impressionantes 88,2% da eletricidade brasileira vinda de fontes renováveis, contrastando com a média global de apenas 28%. Essa liderança é um testemunho do vasto potencial natural do país e do direcionamento estratégico de suas políticas.
A Virada Histórica da Matriz Energética
A transformação mais marcante ocorreu na matriz energética total (Oferta Interna de Energia – OIE), que engloba todos os usos de energia, incluindo transportes e indústria. Em 2024, as fontes renováveis atingiram 50% da matriz energética nacional, um dos índices mais elevados do mundo e um marco histórico.
Essa conquista reflete uma mudança estrutural pois a participação de petróleo e seus derivados na matriz energética diminuiu de 39,2% para 35,1% na última década, e a do gás natural, de 13,5% para 9,6% no mesmo período. Esse recuo dos combustíveis fósseis, combinado com o avanço das renováveis, demonstra um compromisso claro com a sustentabilidade e a segurança energética.
O Salto da Matriz Elétrica: Solar e Eólica em Destaque
A capacidade instalada de geração de energia elétrica no Brasil expandiu-se em cerca de 150% entre 2004 e 2023, atingindo 226,0 GW. O ano de 2024 marcou um recorde histórico, com a adição de 10,9 GW à matriz de geração elétrica, o maior crescimento desde 1997. Desse total, 91% provieram de fontes renováveis, com a solar fotovoltaica (52%) e a eólica (39%) liderando a expansão.
A energia solar teve um crescimento notável, saltando de ínfimos 5 GWh de geração anual há dez anos para 30.000 GWh em 2022. Em 2024, a geração solar fotovoltaica alcançou 70,7 TWh, um crescimento de 40%, e sua capacidade instalada atingiu 48.468 MW, um aumento de 28% em relação ao ano anterior. Atualmente, a geração solar distribuída já conta com 20 GW instalados e mais de dois milhões de consumidores.
A energia eólica também é um pilar fundamental, aproveitando os excelentes regimes de ventos do Brasil, especialmente no Nordeste. Em 2021, o Brasil foi o 3º país globalmente em novas instalações e o 6º em capacidade instalada total. Em 2024, a geração eólica atingiu 107,7 TWh, um aumento de 12%, e sua capacidade instalada alcançou 29.550 MW, um crescimento de 3%.
Impactos Multifacetados da Transição
A transição energética brasileira tem gerado impactos positivos em diversas frentes:
- Ambientais: A diversificação da matriz contribuiu para a redução da intensidade de carbono. A fonte solar fotovoltaica, por exemplo, evitou a emissão de mais de 33 milhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera brasileira nos últimos 10 anos.
- Socioeconômicos: A transição é um motor de criação de empregos. Em 2023, o Brasil classificou-se em 3º lugar globalmente, com 1,5 milhão de empregos em energias renováveis. Os biocombustíveis lideram (994.260 empregos), seguidos pela solar fotovoltaica (264.000), hidrelétrica (177.300) e eólica (80.300). O setor solar, isoladamente, já criou mais de 750.000 empregos desde 2012. Além disso, o arrendamento de terras para parques eólicos tem elevado a renda de pequenos proprietários, gerando estabilidade financeira.
Desafios e Perspectivas Futuras
Os principais desafios para a consolidação da transição incluem a necessidade de investimentos contínuos em infraestrutura de transmissão e armazenamento de eletricidade. Além disso, garantir uma transição socialmente justa, que supere desigualdades e respeite os direitos das populações afetadas, é fundamental.
O Brasil possui um potencial imenso para se tornar um líder global na produção de hidrogênio verde (H2V), um vetor chave para a descarbonização mundial, graças à sua matriz elétrica limpa e abundante. Projetos de H2V já estão em desenvolvimento, com memorandos de investimento significativos, especialmente no Nordeste.
O desenvolvimento de novas tecnologias de armazenamento de energia e a integração de Inteligência Artificial (IA) e Big Data serão cruciais para otimizar a gestão do sistema e garantir a estabilidade da rede.
Em suma, a última década foi um período de profunda transformação para o setor energético brasileiro. Com planejamento estratégico e foco na inovação e inclusão, o Brasil tem o potencial de não apenas atender às suas próprias necessidades energéticas de forma sustentável, mas também de se consolidar como um exportador de soluções de energia limpa em escala global.
Fonte:
Balanço Energético Nacional (BEN) e Anuário Estatístico de Energia Elétrica (AEEE) – Empresa de Pesquisa Energética (EPE): Órgão vinculado ao Ministério de Minas e Energia (MME)