A “árvore do conhecimento cartesiana” ou simplesmente “árvore cartesiana” é uma metáfora filosófica utilizada por René Descartes, (matemático francês, cientista, filósofo, e pai do racionalismo moderno, figura pivotal que influenciou profundamente o pensamento ocidental em diversas áreas) em seu prefácio aos “Princípios da Filosofia” (1644).
Filosofia do conhecimento
Segundo Descartes, a estrutura do conhecimento humano como um todo, é como uma árvore, onde:
- Raízes: A Metafísica. Elas representam os princípios mais fundamentais e indubitáveis, a base de todo o saber, incluindo a existência de Deus, e da alma. São verdades absolutas que não precisam de demonstração. Assim como as raízes sustentam a árvore e fornecem seu alimento, a metafísica é o alicerce sobre o qual todo o conhecimento se sustenta.
- Tronco: É a Física. Ela se desenvolve a partir das raízes metafísicas e representa o estudo das leis da natureza, dos corpos e de seus movimentos, de forma mecânica e racional. É o corpo principal do conhecimento.
- Ramos: São todas as outras ciências práticas, como a Medicina, a Mecânica, a matemática aplicada, a Moral, e etc.. Elas emergem do tronco da física e são as aplicações do conhecimento para a vida humana, visando o bem-estar e a utilidade. São as aplicações do conhecimento que nasceu das raízes e se estruturou no tronco.
Essa metáfora ilustra o ideal cartesiano de um sistema de conhecimento unificado e hierárquico. Cada parte se baseia na anterior, garantindo a solidez e a certeza do saber. O objetivo de Descartes era construir um conhecimento tão rigoroso quanto a matemática, partindo de verdades claras e distintas.
“Princípios da Filosofia” é uma tentativa ambiciosa de Descartes de construir um sistema filosófico completo. Partindo da certeza da existência do sujeito pensante e de Deus, para então deduzir as leis que regem o universo físico. Portanto, é uma obra central para o Racionalismo e para o desenvolvimento da ciência moderna, com sua ênfase na razão, na clareza das ideias e na explicação mecanicista do mundo.
Contribuições do pensamento cartesiano
- A Importância da Dúvida Metódica e da Razão: O princípio de questionar pressupostos e buscar clareza e distinção no conhecimento é um pilar da investigação científica e filosófica moderna.
- O “Cogito, Ergo Sum” (Penso, logo existo): Esta é talvez a ideia mais famosa e duradoura de Descartes. A certeza da própria existência como ser pensante é amplamente aceita como uma verdade fundamental.
- A Geometria Analítica: A contribuição de Descartes para a matemática, com a criação do plano cartesiano, foi monumental e é usada amplamente até hoje. Permitiu a união da álgebra e da geometria, revolucionando o estudo de curvas e figuras.
- A Ênfase no Mecanicismo e nas Leis Naturais: A visão de Descartes de que o universo opera de acordo com leis mecânicas e que os fenômenos podem ser explicados por meio de causas eficientes foi crucial para o desenvolvimento da física e da ciência moderna.
Ciência e filosofia
Em suma, a árvore cartesiana de Descartes lançou as bases para uma nova forma de pensar e investigar o mundo, enfatizando a razão e a dúvida metódica. Enquanto seu método e a primazia do “cogito” ainda são valorizados, muitas de suas explicações específicas para os fenômenos naturais e a natureza da mente foram superadas pelos avanços subsequentes na ciência e na filosofia.
Podemos presumir que todo conhecimento humano está, de certo modo, interligado, sendo sustentado por princípios fundamentais. Para alcançar um saber sólido e confiável é preciso começar pelos fundamentos (raiz), e é exatamente o que ele faz ao duvidar de tudo e reconstruir o saber a partir de verdades indubitáveis.
Somos engenheiros, acostumados a valorizar as ciências exatas. A obra de Descartes nos mostra, no entanto, que para alcançar pleno conhecimento precisamos integrar a ciência com a filosofia para alcançar um sistema lógico e ordenado de ideias.
DESCARTES, René. Princípios da Filosofia. Tradução de João Gama. Lisboa, Edições 70, 2006.